
No ano de 1985, o cantor e compositor Milton Nascimento escreveu em parceria com o também letrista Fernando Brant, a canção que batizou o seu LP naquele ano. Dezoito anos mais tarde, a canção Encontros e Despedidas foi regravada pela cantora Maria Rita em seu primeiro CD, conquistando destaque na mídia brasileira por ser escolhida para ser tema de abertura da novela Senhora do Destino (2004), na Rede Globo.
O cotidiano de uma estação retratado no verso e no canto da composição traz elementos que permitem visualizar situações de passagens comuns nas trajetórias de vida dos indivíduos que habitam cenários sociais. Uma relação de idas e voltas é mostrada por Milton e Brant, logo nos versos iniciais: “Todos os dias é um vai-e-vem / A vida se repete na estação / Tem gente que chega pra ficar / Tem gente que vai / Pra nunca mais...”. Com isso, os autores evidenciam o caráter não-definitivo de momentos e decisões, como a de uma viagem.
Abandono a terceira pessoas por breves linhas nesse momento. Permita-me ilustrar uma situação, que voltarei a debater mais tarde vestido de impessoalidade, mas que agora se mostrou válido citar. Diz respeito à existência homossexual. Ou melhor, sobre a pós-existência homossexual, como uma situação de vida após à morte. Depois de ouvir vários discursos de conversão, libertação e renascimento, então posso contornar a figura que pretendo discutir nos próximos parágrafos: os (nem tanto assim) enigmáticos “ex-gays”. Sim, agora voltando à escrita em terceira pessoa.
Entre depoimentos, entrevistas e testemunhos eles se declaram livres de uma conduta “anormal”, “desviante” e “pecadora”. Assumem-se salvos pela fé, alegando o início de uma nova vida proporcionada pelo fim de uma subversão. A renúncia ao universo da sodomia surge como passaporte para o ingresso ao paraíso, como descrito na Bíblia Sagrada, o grande livro dos mandamentos da lei divina. São anunciados, obviamente, como exemplos do poder cristão, uma vez que conseguiram se reabilitar para a luz.
No conceito compreendido por este discurso, a homossexualidade é reconhecida apenas no âmbito das práticas sexuais com pessoas do mesmo sexo. Trata-se de uma visão limitada, que tem a sexualidade como um interruptor que pode ser acionado e desligado a qualquer momento. O fantasma da “opção” e da “preferência” são vultos que cegam a percepção da grande complexidade que envolve o fenômeno, que ainda engloba questões de identidade, experiências de subjetividade e o campo afetivo.
A promessa de aceitação é disfarçada de salvação divina. Geralmente, a identidade “gay” é observada como um rótulo impresso à base de estigmas num processo histórico longo que, mesmo com todos os avanços significativos com relação à visibilidade, ainda carrega preconceitos e princípios de exclusão social. Sendo assim, o ato de tornar público a renúncia dessa identidade simboliza um movimento de reintegração à sociedade composta por amigos, familiares e redes de contatos profissionais.
Nesse sentido, o que se pode entender sobre “ex-gays” é que são pessoas que abdicam do arbítrio de vivenciar relações eróticas das quais não resulte numa celular germinativa dos padrões heterossexuais de família. Pelo fato do desejo consistir conjunto de experiências e memórias íntimas e individuais, não há como certificar que sua polaridade possa ser alterada a partir de uma decisão súbita. Há muito mais em jogo do que uma simples conversão de valores.
É importante ressaltar acerca da existência de casos apresentados pelos “ex-ex-gays”, que obtiveram fracasso em suas tentativas de abandonar a “sodomia das práticas homossexuais” e voltaram a viver e expressar suas identidades. Um marcador comum presente no discurso destas pessoas é que, por mais que se evite o contato sexual com pessoas do mesmo sexo, o desejo permanece latente, mesmo que de forma mais suave.
Com base nesta hipótese, o que se pode concluir é que através da enunciação de eliminação da homossexualidade (na qual ela chega a ser comparada como um espírito ou demônio que se apodera da alma de alguém) não se chega ao desenvolvimento de uma sexualidade “normal”. Trata-se de um ajustamento à norma social, e a igreja surge como o principal palco para o anúncio desta transformação, uma vez que através dela que se dissemina o padrão heterossexual que delimita as relações de um indivíduo ao seu sexo oposto.
E assim como Milton Nascimento escreveu há tantos anos passados, “Coisa que gosto é poder partir / Sem ter planos / Melhor ainda é poder voltar / Quando quero”, e no imaginário que ronda os processos de alteração da orientação sexual das pessoas, as idas e vindas são marcadas por um chamado especial da condição humana. No trem de partidas, que é o mesmo das chegadas, o principal salvamento na trajetória de migração de um desejo para o outro cruza o caminho do respeito na estação da natureza. Como citou Oscar Wilde, “a ‘normalidade’ é uma ilusão imbecil e estéril”. Sendo assim, por que buscá-la tão desesperadamente?
Naquela Ex-tação
| Jo Fagner é autor do blog O Beijo do Escorpião. É formado em Comunicação Social e atualmente cursa mestrado em Antropologia Social pela UFRN. Suas pesquisas se concentram nos estudos de Corpo, Gênero e Sexualidade. Leia mais sobre o autor... |











