Quem assiste BBB?

 


Sim, eu assisto. E pelo que já imagino, inumeráveis bocas já irão falar em seguida que sou fútil, extremamente sem cultura ao ligar a TV para assistir a um programa vazio, que se destina a ocupar o espaço da programação da Rede Globo com "nada". E daí?

Enquanto muitos desligam a televisão para ficar no Twitter postando suas privacidades ou simplesmente dando "retweets" automáticos em frases de consagrados nomes da literatura brasileira (sem mesmo saber do que estão falando), eu prefiro assumir meu vício de me entregar ao entretenimento (nem tão) barato dos reality shows. E o que isso acrescenta na minha vida?

Costumo pensar que ao invés de ficar postando frases de Clarice Lispector, Vinícius de Moares, Caio Fernando de Abreu ou Fernando Pessoa (que fazem parte de meu universo íntimo), eu prefiro realmente assistir um besteirol pra aliviar o peso da rotina. Não posso deixar de citar a frase de Carlos Nader, um videoartista que desabafa: "Não há vida saudável sem uma dose de futilidade".

E é justamente assim. O cotidiano já está cheio de assuntos sérios: contas a pagar, prazos a cumprir, relacionamentos pessoais e seus problemas, assuntos profissionais e suas limitações, leituras de mestrado, escritos a entregar. Pra que ligar a TV no meu momento de descanso e procurar mais carga intelectual? O cérebro é uma máquina pesada e precisa descansar SIM.

Os pseudo-intelectuais que criticam o Big Brother são os mesmos que não perdem a oportunidade de pular uma micareta, ou de ficar jogando Colheita Feliz, CastleVille e lotar as caixas de mensagens de seus amigos nas redes sociais com convites de aplicativos tão descartáveis quanto um programa televisivo. Também são os mesmos que citam, sem profundidade de conhecimento, frases e trechos de obras de célebres escritores. Motivo: em época de boom das redes sociais, todos querem avatares de gente culta, só pra não ser mais um na teia.

E o que tem de mais assistir o BBB? É só um programa de TV. Não retarda a mente de ninguém, não deixa uma pessoa mais burra ou mais culta. Pelo contrário, ele bagunça o emocional. Essa descarga elétrica causada pela torcida, indignação ou quaisquer sensações que os participantes despertam é necessária ao funcionamento do coração, senão ele congela na monotonia que tece o dia-a-dia.

Mas onde está a cultura? Ora, em todo canto. Não existe ser ou produto sem isso. Cada edição traz arquétipos de nossa sociedade, que são escolhidos a dedo pela produção para provocar identificações entre atores e telespectadores. É assim que a máquina da audiência transforma televisão em dinheiro, o mesmo que paga milhares de pessoas que dependem de estar nos bastidores para sustentar suas famílias ou realizar seus próprios sonhos de consumo.

E no fundo, seremos todos tão iguais. Fama, 1 milhão de reais ou um status de gente culta no Facebook/Twitter/Orkut ou outro site de relacionamentos: todos estamos movidos pela vontade de consumir alguma coisa. Seja para exibir uma intelectualidade através da rejeição ao massivo, ou para cultuar a estética através dos corpos (per)feitos que são mostrados na tela, ou simplesmente para escapar da rotina densa e nervosa, o Big Brother sempre ocupa um espaço na vida de todo mundo. É, e mais ainda nesse ponto o Boninho (diretor do programa) pode se considerar satisfeito.

Sobre o Autor:
Jo Fagner Jo Fagner é autor do blog O Beijo do Escorpião. É formado em Comunicação Social e atualmente cursa mestrado em Antropologia Social pela UFRN. Suas pesquisas se concentram nos estudos de Corpo, Gênero e Sexualidade. Leia mais sobre o autor...