
Dois quartetos e dois tercetos: sob uma estrutura básica se apresenta o Soneto de Fidelidade, poema de Vinícius de Morais escrito no ano de 1939. Dono de um lirismo romântico que ultrapassa o tempo, o poeta registrou em sua canção a concretização das múltiplas manifestações de amor, finalizando com o verso: “Que não seja imortal, posto que é chama/ Mas que seja infinito enquanto dure”. A obra de Vinícius inspirou artistas e escritores, e principalmente tornou-se refrão de diversas histórias de amor pelas gerações seguintes.
Seis décadas mais tarde, no ano de 2003, a cantora Rita Lee lançava o álbum Balacobaco (Som Livre), eleito pela crítica como um dos maiores sucessos de sua carreira, com indicação ao Grammy Latino 2004 na categoria de Melhor Disco Pop Contemporâneo. Na letra de Amor e Sexo, canção de grande êxito que emplacou nas rádios de todo o país, Rita declara: “Sexo vem dos outros/ E vai embora/ Amor vem de nós/ E demora...”. Embora distante dos versos do “poeta da paixão”, a cantora não se distancia das fantasias que constituem o plano emocional das relações sociais que são consumidas daquela época.
Numa época em que o Brasil vivia a Era de Ouro do Rádio (1930-1950) e o mundo assistia a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), a obra de Vinícius figura na construção de ideais românticos. O sentimento “amor” era representado, na literatura e no cinema, como um êxtase compartilhado entre duas pessoas. Estava presente em cenas protagonizadas pela experimentação de palavras gentis, olhares intensos e todo fervor que fosse considerado adequado para o conjunto de valores morais daquele período.
Entendido como um instinto natural, o que se conhece como “amor” é, antes de tudo, uma construção social impregnada na pedagogia das emoções através de jogos narrativos, que está presente no meio artístico, familiar e educacional. Aprende-se a combinação homem/mulher como o meio legítimo de se constituir família, e assim gerar o amor. Na lógica heterossexual que organiza a experiência afetiva em torno das condições reprodutivas, qualquer outra forma de afeição só pode ser vivida no plano da parentalidade ou da amizade.
A cortina que separa amor e sexo – transparecida pela letra de Rita Lee – é frágil e imaginária. O raciocínio social alia-se ao biológico para erguer um pensamento dominante que valida o vínculo emocional entre duas pessoas (fundamentado na configuração macho/fêmea), vivenciado de forma virtuosa, para que aconteça a fecundação, processo essencial para a reprodução da espécie. É responsável pela intolerância ao afeto entre pessoas do mesmo sexo, e pela criação de códigos que reservam à família monogâmica o direito de acesso à intimidade do corpo.
Transportados para a contemporaneidade, os mesmos valores encontram-se dissolvidos em meio ao advento da vida online e das ferramentas digitais. Relacionamentos que outrora aconteciam através de encontros arranjados pelos pais, no mundo das redes sociais e dos aplicativos de telefone são reduzidos à disposição de cardápios que vendem “pares perfeitos”, que na maioria das vezes pode se consumir em encontros casuais finalizados com o ato sexual.
Esse fenômeno não se observa apenas na dimensão virtual, sendo característica também na cultura dos clubes noturnos e eventos recreativos, onde é mais permissivo extrapolar os limites morais sob a justificativa de “brincadeira” que acompanha tais momentos. “Amor” é entendido como um drinque, e “sexo” como uma marca de lençol ou como a espécie de grama que abraça os embriagados no final da noite.
Não se trata de uma banalização do romantismo. As condições para o surgimento desse ideal de amor são outras, diferentes das situações espontâneas que findam na ebulição de corpos, como na fugacidade do éter. Não se esvai depois de um instante. Pelo contrário, os dias permitem que o sentimento se fortaleça. E nem mesmo o desejo mais carnal pode apenas durar apenas uma fração de tempo. O que acontece é diferente.
Assiste-se à derrubada gradativa de uma muralha erguida pela moralidade que é revisada geração após geração. Visualizada anteriormente como uma linha que dividia os mundos em amor/família/céu e sexo/pecado/inferno, tal barreira tem sido dissipada pelas tecnologias. Um possível benefício garantido pelo correr dos relógios é a ampliação da liberdade das experiências afetivas e eróticas, sem que uma esteja obrigatoriamente vinculada à outra. No final, a única coisa que se mostra passageira é o prazo de validade das regras que rotulam as emoções, que são consumidas sem precaução, violando o próprio direito individual à vida em sua forma mais natural e absoluta.
Sexo, amor e éter
| Jo Fagner é autor do blog O Beijo do Escorpião. É formado em Comunicação Social e atualmente cursa mestrado em Antropologia Social pela UFRN. Suas pesquisas se concentram nos estudos de Corpo, Gênero e Sexualidade. Leia mais sobre o autor... |











