Um toque de poder

 


Rosas são espécies de flores cultivadas desde a Antiguidade. Expressam romantismo, principalmente as vermelhas. Também representam um conjunto de características atribuídas à feminilidade. São parte e essência da natureza, e por isso são divinas. Fazem parte de um conjunto de signos que indicam beleza, perfeição e suavidade personificadas na imagem sublime de uma mulher.

O sexo feminino surge nas páginas da história como o sexo frágil, submisso, fortemente marcado por projetos que centralizam o homem como instituição de poder. Aprecia-se a singularidade de suas pétalas, que são macias e delicadas, mas é através da solidez de seus caules e espinhos que elas conquistam ano após ano posições de destaque nos mais diversos espaços sociais, tais como o mercado de trabalho.

Na mídia, elas são consagradas e imortalizadas sob o título de “divas”. Encontram-se especialmente na música, no cinema e na televisão, onde suas imagens são exploradas de forma mais efetiva. Marylin Monroe (1926-1962), Sophia Loren (1932, ainda em vida) e Elizabeth Taylor (1932-2011) tornaram-se nomes incomuns. Carregam consigo o status de ícones de beleza a atitude, materializada até hoje por mulheres no mundo inteiro.

A palavra “diva” tem origem italiana e significa “deusa”. Surgiu para referenciar o talento de cantoras que se destacavam com virtuosidade na cena das óperas e musicais, com maior importância no exemplo de sopranos. O conceito se expandiu pelo mundo e passou a designar artistas cujas interpretações caracterizavam pelo alto teor emotivo, juntos à excelente qualidade da voz. Através de suas consagradas performances, conquistaram fama e seguidores, para quem eram tidas como estrelas imortais.

Transformações culturais e de comportamento agregaram novos sentidos ao vocábulo, de forma mais notável entre o final do século XX e o começo do novo século. O advento das plataformas audiovisuais e as inovações tecnológicas substituíram o anonimato por participações em programas de auditório, produções cinematográficas e videoclipes musicais. De forma independente ou empresariada, o acesso à cena dos espetáculos popularizou o que antes era fantástico: os ícones.

No movimento de massificação do título de “diva” as comunidades e redes sociais da internet repaginaram o culto às célebres interpretações. Imortalidade passou a ser item de consumo rápido, estando intimamente relacionados à moda e a épocas ideológicas. As antigas platéias que iam aos teatros admirar seus ídolos têm seus lugares ocupados por torcidas organizadas que aclamam personalidades nas quais vêem representadas expectativas de atitudes e pensamentos encontrados na suas próprias histórias.

Tabus são o principal objeto da performance desses artistas. Referem-se a valores impregnados na cultura moral dos períodos em que se apresentam, limitando a experiência de vida das pessoas, e que aparecem facilmente quebrados a partir de uma apresentação pública. Virgindade, relacionamentos afetivos, roupas, tudo indica um momento, tentativas de se desatar do proibido e passar a vê-lo como natural e subjetivo.

As mesmas cantoras e atrizes que proporcionaram ao sexo feminino a elevação de fragilidade ao domínio (principalmente de sua sensualidade) também possibilitam a outros indivíduos os seus momentos de reconhecimento de poder. As correntes do estigma social que os posicionam como fracos e desviantes são rompidas na identificação com uma figura que o permite vivenciar emoções e sentimentos de forma livre.

Na comunidade LGBT, por exemplo, não faltam “divas” que brilhem na pista de dança ou no MP3 executado na privacidade do quarto. São canções, videoclipes e coreografias que atuam, através da linguagem do luxo e da extravagância, nas questões relacionadas à aceitação e coragem diante das situações mais diversas que são vividas em seus cotidianos. Por meio de letras e interpretações cada vez mais digitais, elas reivindicam a subversão de regras pré-estabelecidas e a imposição de sua humanidade.

Ser “diva”, na repaginação cultural assistida na era contemporânea, tem a ver com uma possível transgressão de identidades e comportamentos marginais através da espetacularização massiva de performances e interpretações artísticas. Entretanto, basta levar em consideração o fato de que os palcos destinados às apresentações teatrais e musicais eram reservados exclusivamente aos homens para perceber que tal atitude não é tão atual.

Viaja-se pelo tempo, mudam-se as paredes e os rostos dos ícones, mas o verdadeiro sentido de “diva” permanece. As mesmas mulheres que se tornaram aclamadas por se destacar no espaço artístico do sexo masculino, aquelas que utilizaram roupas para reivindicar a liberdade de seu corpo são as mesmas que se materializam em glitter e jogos de luzes nas boates e paradas gays. São deusas por excelência, trazem o olhar de normalidade à aberração, deixam ver o proibido como permissível, e no final reforçam o significado de milagre que a vida tanto precisa para ser sentida plenamente.

Sobre o Autor:
Jo Fagner Jo Fagner é autor do blog O Beijo do Escorpião. É formado em Comunicação Social e atualmente cursa mestrado em Antropologia Social pela UFRN. Suas pesquisas se concentram nos estudos de Corpo, Gênero e Sexualidade. Leia mais sobre o autor...