A borboleta e o Pássaro Azul

 


A cidade de Natal (RN) vive num momento de apogeu da fauna brasileira. Répteis, aves e mamíferos perambulam livremente por um zoológico a céu aberto (de natureza imaginária, mas que inclusive consta no inventário público da capital do estado). Tudo isso começou no dia 1° de janeiro de 2009, quando uma borboleta pousou na poltrona principal da prefeitura natalense, dando início a uma gestão que mais tarde iria ocupar destaque em noticiários, redes sociais e opinião pública.

Filiada ao Partido Verde (PV), a jornalista Micarla de Sousa venceu no primeiro turno das eleições municipais. É filha do ex-senador Carlos Alberto de Sousa, cuja parentalidade contribuiu para conquistar o carisma da população da cidade, juntamente a um forte jogo de marketing produzido na época de sua campanha eleitoral. Pouco tempo após assumir seu posto, o Photoshop da prefeita expirou, mostrando irregularidades, falta de compromisso, competência e ética com as pessoas que a elegeram.

O advento do Twitter [1] serviu de cenário para fiscalizações e manifestações que permitem visualizar a situação de caos vivida nas ruas, avenidas e becos da cidade. Simbolizado por um pássaro azul, a ferramenta serviu para que a população acompanhasse as ações de Micarla, mas também foi o palco das manifestações de reprovação de seu mandato.

Um dos primeiros episódios foi o massivo bloqueio de usuários que foram impedidos de seguir o perfil oficial da prefeita. Comparados a cães de alta periculosidade, uma focinheira foi colocada na boca de um considerado número de internautas que demonstravam na rede a sua insatisfação com a gestora, através de mensagens questionando resoluções e expressando insatisfação. O gesto resultou inclusive na criação de um novo perfil, o @BlockdeMicarla, com a publicação de dados oficiais da administração municipal e postagens que criticam as medidas adotadas na gestão.

Em um próximo passo da guerra estabelecida online, os usuários se uniram em torno da hashtag [2] #ForaMicarla. O gesto significou um aumento da visibilidade da reprovação dos natalenses, que se mobilizaram e organizaram atos públicos, como na onda de protestos que invadiu as ruas em maio deste ano para pedir o impeachment da prefeita. Foi a época dos leões de dignidades feridas ocuparem a selva urbana em gritos que foram ouvidos pelo país inteiro.

No meio da revolução apareceram ainda os papagaios, que se incorporaram em perfis de identidade falsa na rede, os famosos fakes. Estes usuários caracterizaram o período de sátira, ironia e caricaturas da figura de Micarla, em tons de humor e denúncia. A cena é marcada pela quantidade considerável de páginas criadas com tal finalidade, que tiveram sua aprovação garantida pelo número de seguidores e compartilhamento de seus conteúdos postados em larga escala.

A borboleta foi amparada por cobras-de-guarda na batalha contra todos aqueles que enviaram suas mensagens através do pássaro azul. Em um dos principais e mais ativos foi o perfil fake de @MilenaTristoRN, que se posicionava a favor da prefeita com tons de bajulação, e respondia de forma ofensiva aos usuários que protestavam na rede. Mais tarde, a cobra mudou de pele e esqueceu-se de cobrir o corpo, num episódio acidental e descuidado [3] que revelou a verdadeira identidade de quem postava os conteúdos: o assessor de Micarla.

Com dificuldades de respirar o ar poluído pela própria sujeira, a borboleta ainda trabalhou em uma distribuição de gratificações àqueles que ajudavam a proteger suas frágeis asas. E surgiram carrapatos, tais como a “rainha do Twitter” que foi nomeada oficialmente “Assistente de Projetos Comunitários”, revelando a atribuição de cargos comissionados pela prefeita a “profissionais” sem nenhuma qualificação, baseando-se numa política de relacionamentos e propaganda de sua administração.

Em meio ao ar rarefeito da atmosfera de perigo provocada pela gestão municipal, a borboleta traça o seu vôo de danificação à paisagem de Natal. Transforma o campo em selva, com espécies parasitas e venenosas, enquanto pensa que os outros habitantes são apenas burros. A esperança pela primeira vez muda de cor: deixa de ser verde, e o pássaro azul mostra os sons de cores variadas, que gritam no mesmo refrão e pedem apenas respeito à dignidade de cada cidadão. Em jogo, apenas o direito primordial de ir e vir, que está esperando que em uma borboleta saia do caminho para se realizar.


[1] Microblog e rede social gratuita que permite que usuários compartilhem diversos tipos de conteúdo através de textos de até 140 caracteres (http://twitter.com).
[2] Palavras-chave ou termos associados a uma informação, designando assuntos que estão sendo discutidos em tempo real no Twitter, virando hiperlinks dentro da rede. (Fonte: Wikipedia)
[3] Leia em: http://diariodereporter.wordpress.com/2011/11/29/o-fail-da-prefeitura-e-o-fake-revelado/

Sobre o Autor:
Jo Fagner Jo Fagner é autor do blog O Beijo do Escorpião. É formado em Comunicação Social e atualmente cursa mestrado em Antropologia Social pela UFRN. Suas pesquisas se concentram nos estudos de Corpo, Gênero e Sexualidade. Leia mais sobre o autor...