
Palavras tem significados e são atribuídas a objetos, sensações e suas texturas. Cada termo utilizado na oralidade cotidiana é uma forma de anunciar nomes e classificações, no movimento de ordenação do material físico e abstrato que participam da vida social. Sendo assim, para que seja possível legitimar o conhecimento sobre tudo que habita o ambiente do homem, os vocábulos são acionados para organizar as experiências e atribuir significados, verdades e regulações a toda conduta que se estabeleça no meio social.
Entretanto, o uso de determinados verbetes para designar percepções de mundo não apresentam uma correspondência real ao que se está tentando representar. A partir do momento em que se desenvolve o olhar científico a partir da análise de amostras e exemplos dos estudos das mais diversas áreas, o discurso sobre as coisas se apresenta como passível de ressignificações, no intuito de compreender o universo. Novos sentidos são acionados como um modo de entender principalmente a “cartela de práticas” que estrutura a existência humana.
O fenômeno da homossexualidade apresenta diferentes vertentes sobre a questão dessa representação que surge a partir dos termos empregados para aludi-la. Os indivíduos que apresentam a capacidade de sentir atração afetiva e sexual por outros do mesmo sexo foram encontrados pelo discurso medido do século XIX na explicação do “homossexualismo” como um distúrbio mental ou doença. A carga do sufixo “ismo” é patologizante e tem raízes na imposição da heterossexualidade como norma e natureza do ser humano no discurso do modelo religioso e estatal de família, que visa à reprodução da espécie.
No discurso antigo a sexualidade poderia ser considerada apenas como uma prática, tal qual o status de perversão que se criou sobre os gays. O pensamento médico daquela época vincula o homossexual à idéia de “opção” ou “preferência” sexual, dando um tratamento de escolha à questão da sexualidade humana. Nesse sentido, o desvio do sujeito da norma hetero configurava um problema de comportamento que precisaria de correção. Tais termos caíram em desuso a partir do reconhecimento das capacidades sexuais dos seres vivos.
Um importante dado biológico foi fundamental para a compreensão dos questionamentos que envolvem tais práticas. No ano de 2006, o Museu Natural de História de Oslo (Noruega) apresentou uma exposição dedicada a animais gays, chamada de “Against Nature”, que exibiu um número de aproximadamente 500 espécies onde se encontram relatos de comportamento homossexual entre mamíferos, insetos e outras espécies [1]. Diante do fato observado, não há como classificar o instinto sexual encontrado na natureza como forma de arbitrariedade, principalmente em espécies tidas como irracionais.
Nesse ponto de vista, o termo “orientação” aparece como um método para enquadrar a experiência da sexualidade humana. Diz-se como termo mais apropriado para se referir à atração física e/ou emocional entre os indivíduos. A abordagem implica em apontar caminhos a serem dirigidos pelo desejo, sendo eles para o sexo oposto ou para o mesmo sexo de alguém. De fato, quando há uma direção, também existe um orientador, que não pode ser a mesma pessoa que é orientada, já que isso configuraria uma arbitrariedade, ou uma “opção”, “escolha” ou “preferência”.
Realmente, “orientação” não é um termo tão fugidio, mesmo sendo considerado como o mais adequado e oficial. O sujeito nasce e é inserido na sociedade sob a norma principal da heterossexualidade. Seu comportamento e seus projetos sociais são guiados no sentido de estabelecer um modo de vida que obedeça à lógica heterossexual. Sendo assim, não é errado afirmar que existe essa orientação, mas no caso da homossexualidade, o mesmo termo não se aplica, já que não existe um investimento em se educar pessoas como tal.
Eis que aparece uma nova possibilidade de se observar o fenômeno. No exemplo da transexualidade, uma pessoa reconhece a inadaptação do corpo anatômico ao sexo que ela própria se define. Pondera-se sobre o caso a partir da noção de “condição” daquele sujeito, como um modo de ser, o que se aproxima bastante dos dados biológicos encontrados nas espécies do mundo animal. Se a sexualidade é uma capacidade de se atrair por outro indivíduo, então é possível que ela esteja mais relacionada a uma condição do que uma orientação, que na maioria das vezes é social.
Algumas teorias rejeitam o uso do termo, para que não se aproxime de uma compreensão da sexualidade como um dado fixo, imutável, que não exclua as outras possibilidades. Entretanto, tal pensamento coloca, mais uma vez, o desejo como uma questão de ato a ser consumado, e não como expressão de uma capacidade humana. Práticas sexuais com animais e outros fetiches não anulam a atração sexual por humanos, que vai ao sentido de qualquer um dos sexos, ou dos dois ao mesmo tempo.
A bissexualidade surge como uma promessa de quebrar a fixidez da dicotomia hetero/homossexualidade como únicas formas de desejo sexual. Parece uma justaposição das duas. Na verdade, assim é. Levando em consideração que existe uma sexualidade orientada (hetero) que encontra outro desejo sexual em si (homo), em que não há renúncia de alguma, o sujeito pode viver os dois modelos da forma mais conveniente em sua vida social, podendo desempenhar as duas abertamente ou mantendo uma em segredo.
O rótulo de “gay” é carregado de estigmas históricos, e por isso mostra influência no momento de se reconhecer como “bi”. Pode significar um mecanismo de recusa a essa identidade, uma vez que não se descarta totalmente o modelo aprendido dentro da norma em que se é educado. Assim como acontecem com o caso de ex-gays que tratam a sexualidade como um interruptor, que pode ser ligado ou desligado a qualquer instante. Na maioria das vezes, atribuem à religião o papel de regeneradora de desajustados. Mudam seu status social, investem numa disciplina do desejo, quando na verdade não “matam” realmente seus desejos, uma vez que eles apenas dormem na esperança de não serem marginalizados pela sociedade. Existem inúmeros casos de “ex-gays” que voltaram a assumir a homossexualidade depois de um bom período de abstinência.
Nos vários discursos que se montam ao longo da história sobre as possibilidades de arranjos afetivos e sexuais entre duas (ou mais) pessoas, a produção de uma verdade se faz presente: encontra-se uma forma cada vez mais eficiente de manter a heterossexualidade na posição hegemônica. Os termos buscam cada vez menos definir o fenômeno da sexualidade como um dado natural do ser humano, ao mesmo tempo em que buscam naturalizar as relações no sentido de agir contra a violência contra as outras possibilidades.
Existem desejos e formas de visualizá-los e vivenciá-los nos âmbitos público/privado, às vezes em locais que nem mesmo a ciência mais qualificada consegue alcançar. O fato é que há uma tentativa excessiva de mecanização da sexualidade, reduzindo-a ao nível da reprodução e ignorando o campo emocional. Algumas teorias esquecem que o homem não passa de um animal evoluído: também instintos, mas diferente dos “irracionais”, sua natureza enfrenta códigos que só existem em culturas vigiadas pelas regras simples das sociedades complexas.
[1] HOMOSSEXUALIDADE NO REINO ANIMAL. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2011. Disponível em: > . Acesso em: 23 dez. 2011.